Brasil - Santos - 5/9/2010
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06/02/2010
Carnaval e sua História

 

(*) José Luiz Lousada

 

Uma grande parcela da população participa e se envolve com o carnaval. Mas pouca gente sabe as origens desta festa popular, uma das maiores do mundo.

 

Em finais do século XVIII, o entrudo, inicialmente chamado, era praticado por todo o país consistindo em brincadeiras e folguedos, variando conforme os locais e os grupos sociais envolvidos.

 

As primeiras tentativas de civilizar a festa carnavalesca brasileira foram através da importação dos bailes e dos passeios mascarados parisienses, colocando o entrudo popular sob forte controle policial. A partir do ano de 1830, uma série de proibições vai se suceder na tentativa, sempre infrutífera, de acabar com a festa grosseira.

 

Em finais do século XIXX, toda uma série e grupos carnavalescos ocupam as ruas do Rio de Janeiro, servindo de modelo para as diferentes folias. Nessa época, esses grupos eram chamados indiscriminadamente de cordões, ranchos e blocos.  
 
 

 

Chiquinha

 

Em 1899 Chiquinha Gonzaga compôs a primeira música especificamente para o Carnaval, "Ô Abre Alas!". A música havia sido composta para o cordão Rosas de Ouro quer desfilva pelas ruas do Rio de Janeiro durante o carnaval. Os foliões costumavam freqüentar os bailes fantasiados, usando máscaras e disfarces inspirados nos "balls masqués" parisienses.

 

As fantasias mais tradicionais e usadas até hoje são as de Pierrot, Arlequim e Colombina, originárias da Comédia Dell’arte italiana. Em 1890, e por algumas vezes antes, foi tentado uma modificação na data do Carnaval, deslocando-o para os meses do inverno, "para evitar os malefícios do verão escaldante". Contudo, nenhuma tentativa de mudar a data do Carnaval teve sucesso no Brasil.

 

No Rio de Janeiro e em várias grandes e pequenas cidades, desde os anos 30, as Escolas de Samba desfilam e especialmente no Rio atraem milhares pessoas – fato que fez surgir  a indústria do carnaval gerando empregos nos barracões das escolas de samba na confecção dos carros alegóricos, fantasias e adereços.
 
 

 

Hoje

 

O desfile mais tradicional acontece no Rio de Janeiro na Passarela do Samba, como é chamado o primeiro Sambódromo construído no Brasil. Outros desfiles importantes ocorrem em São Paulo, em Porto Alegre e em Belém. Nos últimos anos, o desfile de São Paulo adquiriu tanto importância que passou a ser transmitido pela Rede Globo e Cultura.

 

Outros dois fortes concorrentes destes dos dois sambódromos são Salvador e Recife/Olinda. Da mesma forma, atraem milhares de foliões.

 

O primeiro tem um enorme apoio da Band TV, atraia especialmente jovens que lotam os diversos blocos de axé e afoxé, e artistas consagrados, como Caetano Veloso, o ministro da Cultura Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Daniella Mercury e um sem números de personalidades.
 

 

Recife/Olinda

 

Já Recife, sem tanto apoio da mídia nacional, faz talvez o maior carnaval popular do país. E nesse ano tem atrações com vários gêneros musicais – Naná Vasconcelos, Luiz Melodia, Zeca Pagodinho, Otto, Lenine, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Jorge Ben Jor, Diogo Nogueira, Zé Ramalho, Dudu Nobre e Alceu Valença.

 

Já Olinda, próximo a Recife, com um carnaval irreverente e escrachado, abre espaço para os blocos de rua, por suas inúmeras ladeiras, sendo o mais tradicional o Bloco do Batata, e os bonecos gigantes de Olinda, que desfilam ao lado de uma multidão de foliões. O SBT deve fazer a cobertura total destas duas cidades.
 
 
 

Santos

 

Santos já teve carnavais memoráveis. Desde os anos 30/40, a cidade oferecia aos foliões e turistas inúmeros eventos – que iam dos blocos e troças, as batalhas de confetes – desfile das escolas de samba semana antes do carnaval – o Banho da Dorotéia – bailes nos vários clubes e as bandas, que se tornam tradição a partir dos anos 70.

 

Há cerca de 10 anos, por causa da violência ocorrida em uma banda de rua que desfilava pela avenida da praia, o carnaval de rua ficou limitado às ruas dos bairros. São inúmeras agremiações que desfilam antes e durante o carnaval.

 

Os clubes que tinham bailes tradicionais também deixaram de ser realizados há muitos anos, pela perda de muitos sócios. Hoje, apenas alguns realizam eventos.

 

Além disso, os desfiles de escolas de samba – que aconteciam na orla da praia – foram transferidos para a Zona Noroeste e já não têm mais o brilho de antigamente.
 

 

Sua história

 

O Carnaval é uma tradição em Santos desde o final do século 19, quando o povo se divertia pelas ruas e, na Praça Mauá, aconteciam bailes de máscara. Nessa época, um dos principais foliões do município era o médico Henrique da Cunha Moreira, da pioneira Sociedade Carnavalesca Santista. Em sua homenagem foi batizada uma via no bairro da Encruzilhada onde hoje, coincidentemente, reside outra figura ilustre: José Muniz Júnior, 75 anos, o marechal do samba.

 

J. Muniz Jr., como prefere ser chamado, viveu grande parte dessa festa popular na cidade, além de ter se tornado pesquisador e especialista sobre o assunto. Ele é autor de livros como ‘Panorama do Samba Santista’, ‘Do Batuque à Escola de Samba’ e ‘O Samba Santista em Desfile’. E a sua pesquisa começou in loco (no local), na década de 40, ainda criança, quando brincava o Carnaval no Centro Histórico, levado por seu pai.

 

“A Praça Mauá era a apoteose e a José Bonifácio a Meca do Carnaval, onde os foliões se concentravam”, conta, se referindo a festa feita por blocos, choros, cordões, ranchos e, mais tarde, pelas escolas de samba. À época, a festa também era concorrida nos salões, ao ritmo de grandes orquestras. “Mas sempre gostei mais da rua”.
 
Os blocos

 

Em 1948, o marechal acompanhou os blocos ‘Ases do Paquetá’ e o ‘Bloco dos Sujos’, no Centro, no qual os foliões passavam carvão no rosto para se fantasiar. A partir daí, tocando tamborim, também curtiu o ‘Tribo Aimoré’ (Paquetá), o imbatível  ‘Chineses do Mercado’ (foto), Dengosas do Marapé e o ‘Agora Vai’, marcado pela crítica à política, e muitos outros.

 

As escolas de samba começaram a surgir em Santos em 1939, com a presença da ‘Não É o que Dizem’, nos festejos comemorativos do centenário da elevação de Santos de vila à cidade.
 
Depois vieram outras agremiações: Dois Pinguins (1940), Número Um do Canal 3 (1941), Aí Vem a Favela (1942) e a X-9 (1944), onde J. Muniz começou sua trajetória em 1955, participando de uma ‘prova de fogo’ para entrar na bateria da escola. Começou no tamborim, aprendizado dos blocos, passando por vários instrumentos (agogô, reco-reco, chocalho, cuíca, entre outros).

 

Depois foi passista e tornou-se o primeiro mestre-sala em Santos, cultura trazida do intercâmbio com o Rio de Janeiro. Era apenas o início de uma história de cerca de 60 anos em participação nas escolas de samba, entre X-9, Brasil e União Imperial. “Havia preconceito contra as escolas, diziam que era coisa de marginal”. Em 1995 veio a homenagem da extinta Império do Samba, que o agraciou com o título não oficial de marechal do samba. A oficialização do posto veio em 1986, quando recebeu a faixa e o bastão de comando das mãos do então prefeito Oswaldo Justo, com o batismo do rei momo Waldemar Esteves da Cunha.

 

Em 2000, outra coroação, o título de cidadão samba. Do ano seguinte até 2005, Santos ficou sem desfile oficial das escolas, duro golpe mas que não decretou o fim do Carnaval na cidade. Em 2001, teve início o Carnabonde, na Praça Mauá, com o objetivo de revitalizar o Centro Histórico e manter vivo o glamour dos antigos carnavais e, em 2006, foi retomado o desfile oficial das escolas. “Santos é uma cidade batuqueira e carnavalesca por excelência, herança que vem dos tempos dos escravos nos quilombos”, afirma J. Muniz Jr.
 
(*)  José Luiz Lousada é jornalista e editor da Trupe.
 
 

 

 

 


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