Brasil - Santos - 5/9/2010
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Vapor Barato
Mauri Alexandrino - é jornalista
É só burrice e falta de costume!

 

A falta de costume é um problema. Boa parte das pessoas que compõem o que se poderia chamar de elite no Brasil, o topo da pirâmide, está com dificuldade de conviver com a nova presença internacional do país. Isso se reflete na grande mídia, especialmente na impressa.

O caso do acordo Brasil – Turquia – Irã é emblemático. A cobertura não alcança a sutileza dos negócios diplomáticos, não vê o quadro geral de múltiplos interesses e torna raso o assunto. Jornais do exterior, não importando a posição editorial sobre o tema, não fazem isso. Do que deduzo que alguma coisa está fora de ordem.

A política externa de uma nação é executada por sua diplomacia, que é encarregada de projetar no mundo o poder militar e econômico do país. É o que é. Nua e cruamente. Não somos evidentemente uma potência militar, mas somos a oitava economia do mundo, a caminho de ser a quinta em quinze anos. E no caminho vai ser preciso dar e tomar cotoveladas, assumir responsabilidades. Qualquer um entende isso, quero crer.

Todos temos visto, por exemplo, a iniciativa no Irã ser tratada como “ingênua”. É desinformação que beira o ridículo. Nossa diplomacia tem uma larga experiência de dar nó em pingo d'água, que vem desde o império. Ingenuidade, de verdade, é acreditar que o objetivo brasileiro foi, em algum momento, dar uma solução à questão nuclear do Irã. O que, de resto, não está em nossas mãos nem poderia.

O objetivo mais geral foi o de demonstrar que a articulação de novos atores pode produzir, reduzir atritos e fricções, o que reforça a proposta brasileira de ampliação no número de membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

Ao oferecer seus bons ofícios, como se dizia antigamente, Brasil e Turquia informam, concretamente, que interlocutores sem o peso dos interesses diretos podem obter resultados onde eles falham — o que reforça a tese da multipolaridade e mina a credibilidade dos falcões.

Política e negociação

O terceiro objetivo foi o de reafirmar que a diplomacia soft do Brasil joga suas fichas na política e na negociação, e não nas armas. Isso incrementa de modo fascinante o perfil pacífico do país no mundo. Por fim, o quarto eixo dos objetivos era o de projetar a gentil face brasileira no Oriente Médio, área que muito nos interessa no que se refere a trocas comerciais.

Todos os objetivos foram alcançados com brilho. Não foi por outro motivo que EUA apressou-se em apresentar um novo rascunho de resolução de novas sanções já no dia seguinte ao acordo. Qualquer hiato poderia ser fatal aos seus interesses na mesa da ONU. Se novas sanções forem de fato aplicadas, o serão apesar da negociação feita sobre uma proposta que eles mesmo apresentaram em outubro e que não querem mais em maio.

Eles contavam com uma recusa iraniana e consequente fracasso da iniciativa, para acrescentar isso à lista de acusações contra os persas — ou alguém acredita que o discurso das potências nucleares seria o atual se Lula deixasse o Irã de mãos abanando? Lula estaria agora sendo endeusado por todos como um simpático campeão da paz, que tentou apaziguar a fera, mas não conseguiu, nem mesmo ele, porque fera é fera e assim deve ser tratada. O fracasso os facilitaria, o que aconteceu os surpreendeu até a medula, drible no contrapé.

Diz-se que o Irã estaria apenas ganhando tempo, como se isso fosse novidade no mundo e, pior ainda, como se isso não fosse óbvio para a traquejada diplomacia do Itamaraty. Não importa o que se pense do Irã, eu mesmo não nutro qualquer simpatia por aqueles aiatolás malucos e seu fanatismo religioso — mas me espanta profundamente ver jornalistas famosos fazendo acreditar (porque duvido que sejam tão ignorantes) que esse é o motivo de fundo dos problemas atuais.

Lógica e bom senso

Motivos devem ser procurados nas invasões unilaterais do Afeganistão e do Iraque, bem às suas portas, na frota americana em suas águas, no arsenal nuclear jamais contestado de Israel, na crescente crise paquistanesa, outro país, bem ao lado, que dispõe de armas nucleares, igualmente sem contestação das potências. Se eu, você, nós fôssemos iranianos estaríamos mesmo com as barbas de molho. É lógica e bom senso.

Tentam, a todo custo — a verdade e a informação como primeiras vítimas — transformar uma vitória, com gol de placa, em uma derrota. É primitivo isso. É tanto, que faz suspeitar que tudo não passa de mera e pobre questão eleitoral. O hoje habitual tratamento raso e burro que está acabando com os jornais. A diplomacia não é feita de vitórias e derrotas, mas de processos negociais ou bélicos. Processos longos que dependem de muitos atores. A entrada do Brasil no mundo das questões cruciais se fez com surpreendente eficácia e brilho.

Vejo analistas perguntando o que o Brasil tem a ganhar com isso. Por favor, não subestimem minha inteligência. O que tínhamos a ganhar, já ganhamos quando o governo iraniano assinou o acordo. Esse era a pedra de toque que fomos buscar. Alcançado isso, nos tornamos um expectador privilegiado e moralmente respeitado. O resto não é conosco.

O país está preparado para seu novo papel e para a reafirmação de uma diplomacia independente e, o mais incrível, é que o mundo também está. Quem não está é a elite nacional e sua mídia colonizada, gente que amaldiçoa a má sorte de não ter nascido nos Estados Unidos ou, pelo menos, num país europeu desses melhorzinhos.

 



21/05/2010
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