Brasil - Santos - 5/9/2010
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Mistura Fina
Carlos Bittencourt Ferreira - é redator em propaganda e marketing e cronista
O Estadão sob censura

 

Para quem trabalha em comunicação a simples menção da palavra censura já causa arrepios. É o meu caso. Sou redator publicitário e fui obrigado a conviver com essa mordaça desde o começo de minha carreira, nos anos 70. Tempos duros. A truculência no poder. Os milicos batiam com o pau na mesa, com ou sem motivo, quando não batiam na cabeça da gente, o que era frequente.

 

Lembro-me de um trabalho que criei na McCann para as calculadoras Texas, que deu bode. Aliás, um bode do tamanho de um mamute lanudo. Era uma campanha de rádio e jornal, dirigida aos estudantes em volta às aulas. A chamada, provocativa e humorada, anunciava: TI 57 PRENDE ESTUDANTE!

 

No dia seguinte tinha um milico na agência. Cinquentão, peito de pomba, estufado, cabelos cortados à escovinha, terno cinza, sanguíneo, o cara bufava de tão irritado.  E voziferava que, antes de ver a campanha  a campanha fora do ar, fazia questão de conhecer o autor, ou autores, da infâmia. Vi a figura de longe, andando de um lado para outro no corredor, pisando duro como um prontidão.

 

Felizmente não chegamos a nos encontrar. Explico. Como todas as agências multinacionais da época, a McCann também tinha alguém do ramo para tratar diretamente com Brasília. Assim, depois de um simples telefonema para o planalto central, a campanha foi liberada e nós pudemos respirar aliviados.

 

Outra vez que esbarrei pessoalmente na censura foi na Cásper Líbero, onde eu fazia jornalismo. Minha classe era a mais visada da faculdade pois, além de jovens estudantes, tinha alguns alunos que já trabalhavam no meio, como Augusto Nunes, Maria Adelaide Amaral e Dácio Nitrini, todos jornalistas, além de Tom Figueiredo e eu, redatores publicitários. Gente de muito talento e politicamente não alinhada com a ditadura. Para dizer o mínimo.

 

Numa prova de redação com tema livre, redigi um texto com o  título: COPA 70, UMA VITÓRIA VERDE-OLIVA. Bastou. Mal entreguei o trabalho e o professor me chamou, sério. No canto da sala, disse que a matéria deveria estar ótima, mas pediu-me que escrevesse sobre qualquer outro tema, menos arriscado. Falou, olhando para um aluno estranho, calado, de cabelos curtos. E completou, baixinho: “Tem boi na linha”. Entendi o recado. O rapaz era da Repressão, com certeza um militar infiltrado, como era comum nas faculdades, naquela época.

 

Peguei minha prova de volta e, seguindo o exemplo do que o jornal O Estado de São Paulo fazia (preenchendo os espaços das matérias censuradas com receitas de culinária), escrevi outro texto, sobre a famosa lasanha de minha avó Joana.

 

Foi um sucesso. A redação, além de receber nota 10, foi lida em voz alta pelo mestre e aplaudida entusiasticamente pelos colegas, numa deliciosa e sarcástica esculhambação geral. O bate-pau teve que engolir. Em seco.

           

De arrepiar

 

Hoje, passados tantos anos daquele período, volto a me arrepiar com a censura, ao ver o velho Estadão proibido pela Justiça de comentar qualquer coisa sobre o filho do Presidente do Senado, José Sarney. Que desgosto!

           

O fato, além de absurdo, é totalmente anacrônico. Ou, pelo menos, assim deveria ser entendido e tratado. Afinal, estamos em 2010, a mais de três décadas do fim da Ditadura. Mas a Censura aí está, mais uma vez, para arbitrariamente calar o direito legal e soberano de um veículo de comunicação de dar a notícia. No melhor estilo goela abaixo.

           

Quando se trata dos Sarney, porém, há jurisprudência. De sobra. A história recente  do país está aí escrita, no  preto e no branco da nossa imprensa, para mostrar a insuperável habilidade política desta famiglia em negociar o que quer que seja, custe o que custar, a quem custar. Desde que o clã saia impune. Na base do mamão com açúcar.

           

Entretanto, tão ou mais preocupante do que os acontecimentos, foram as reações de dois órgãos com tradição secular na defesa da justiça e da liberdade: a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e a ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Absolutamente insossas.

 

As críticas de ambas foram pífias. Insisto, tímidas demais para a gravidade da questão. Assim como foram embaraçosamente comedidos todos os protestos da “grande mídia”, que não quis (e parece continuar não querendo) sair de uma certa zona de conforto em relação a um assunto tão apimentado. Prudência e canja de galinha.

 

Assim, no país em que tudo acaba em pizza, os veículos de comunicação parecem bem mais interessados em defender suas gordas receitas de propaganda, do que se lembrarem do período esquálido em que as páginas do jornal O Estado de São Paulo estavam fartas de receitas de culinária.

           

Farinha pouca, meu pirão primeiro!

 

 



21/05/2010
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